Antologio

🧠 Depressão no cônjuge

Andréa Maciel Pachá, livro "A Vida Não é Justa". Editora Agir, Rio de Janeiro, 2012. Parte II: "Pais e Filhos", Capítulo "Um Dia de Cada Vez".

Uma noite, quando chegou, depois de 45 dias no mar [embarcado numa plataforma de petróleo], Carlos não acreditou no que via: as crianças, ainda de uniforme, acordadas, sentiam fome; a casa, imunda, denunciava o abandono de alguns dias; o barulho da televisão tumultuava ainda mais o ambiente. No canto escuro do quarto, deitada, magra e abatida, Sueli parecia morta.

O filho mais velho, agora com dez anos, contou ao pai que há dois dias ela estava assim. Ele não chamou ninguém: enquanto tinha comida, cuidou dos irmãos -- sabia que o pai estava voltando.

Sueli não melhorava, ao contrário -- as tentativas de tratamento fracassaram. Restou a Carlos ligar para a família da mulher e pedir ajuda. A sogra veio de outra cidade, levou a filha para sua casa, mas dos netos não tinha condições de cuidar. Seis meses sem melhoras, Carlos pediu a guarda das crianças: as providências para matrícula na escola exigiam esta solução.

'Agora [depois de alguns anos] Sueli reaparece, como se nada tivesse acontecido, e acha que pode levar os meninos embora?' [...] Transtornado, o olhar de Carlos fulminava a mulher. Sua súbita e surpreendente reação à depressão desarranjou a rotina que começara a fluir com naturalidade. Foi Sueli, na visão de Carlos, a causadora do duplo problema: era responsável pelo abandono dos filhos e, agora, também o era pela tentativa de mudar a rotina dos meninos. 'Só pensava em si.' Ele jamais concordaria com a inversão da guarda.

—Eu nunca abandonei as crianças, eu estava doente! Você quer que eu me sinta mal porque estou melhor?

'Quanta dificuldade para lidar com a depressão por perto' -- eu pensava. Pior do que o estado da vítima é o julgamento fácil das pessoas próximas. Mesmo sem intenção, elas acabam por transferir para o deprimido a culpa pela doença, como se, num processo depressivo, alguém fosse capaz de reagir e mudar o rumo da vida. Como se, ao entrar naquele buraco escuro e sem fim, a pessoa o tivesse feito por vontade própria. Deve ser a dificuldade de olhar nos olhos da tristeza.

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